JOTA RAPOSO
Outorguei-me, se me permitem, a insigne incumbência de escrever sobre um dos ilustres filhos de nossa pequena e amada aldeia.
Incumbência grata, devo dizer, em razão da afeição que me liga ao ora homenageado; meu amigo, consultor, confidente e irmão, José Dias Raposo.
Ainda assim levantem-se todas as suspeições, pois sob outro título não o faço, senão, o certificado da lixa do tempo.
O que vou relatar é expressão da verdade, haurida nas sendas do tempo, no turbilhão da vida cotidiana.
Alguns ainda se lembrarão do pequeno Zeca, que nos idos de 1958, antes mesmo de completar a 4ª classe, deixou esse nosso pequeno torrão para ir residir no Brasil.
Fisicamente distante, manteve sempre viva, em sua memória, a amada aldeia dos samarras.
Desde cedo ingressou nos meios de comunicação (Televisão e Rádio) onde exerceu vários cargos que lhe propiciaram ter uma visão ampla de várias áreas. Foi cortador de filmes, auxiliar de tráfego de produção, assistente executivo de gerência de produção, gerente de programação, entre outros.
Trabalhou, em 1965, na extinta TV Excelsior. Passou pela TV Tupi e TV Morena de Campo Grande, Mato Grosso.
Entre 1968 e 1971 trabalhou na TV Globo, São Paulo, quando foi convidado a transferir-se para o Recife, onde em 1972, foi um dos fundadores da Rede Globo Nordeste.
Em 1990 passou a atuar como Diretor de Programação e foi, a partir daí, que pode mostrar toda sua versatilidade como Produtor de Espetáculos, Diretor Cênico, Locutor, Comentarista, Compositor, mas, acima de tudo, como ser humano altruísta e desprendido de valores materiais.
Foi comentarista esportivo, de rádio e TV, e fez as primeiras transmissões do campeonato pernambucano na TV Globo.
Em 1984, à frente de grande equipe, cobriu os Jogos Olímpicos de Los Angeles.
Responsável por inúmeros projetos, tais como: “Canta Nordeste”, “Frevança”, “Vamos abraçar o Sol”, “Lance Final”, “São João do Nordeste”, “Forró da Capitá” e o “Festival do Verão de Recife”, “Trem do Forró”, possibilitando a divulgação de maracatus, frevos, caboclinhos, enfim, de toda a musicalidade nordestina.
De sua lavra brotavam, com a mesma intensidade, e qualidade, inúmeros amigos, que soube, como poucos, conservar em torno de si.
Descobriu e serviu de mola propulsora a uma infinidade de artistas, jornalistas, comentaristas aos quais alavancou carreira fazendo-o, única e exclusivamente, pelo denodado interesse que tinha pela arte, pela cultura e pelo amor que destinava à sua maior paixão: seu trabalho.
Pode-se afirmar, sem medo algum de erro, que ele “casou” com seu trabalho. Satisfazia-o! Dava-lhe prazer!
Amava, como todos emigrantes, sua terra. Por esse amor e para mostrá-lo, viajou pelos países lusófonos e sobre a “LUSOFONIA”, produziu um especial de muito sucesso no Nordeste brasileiro.
Tinha paixão pela cultura em geral, mas tudo que fizesse menção a Portugal, Pernambuco e futebol era motivo para longas e cativantes conversas, já imaginando produções sobre o tema.
Os amigos mais próximos diziam que era um português de Pernambuco, ou um pernambucano de Portugal
Sua vida era feita de andanças, posto que irrequieto. Buscava, incessantemente, novas produções no incansável afã de aprender e dar a conhecer.
Imbuído desse sagrado dever conheceu boa parte do mundo e, com certeza, a realidade de todo o Nordeste brasileiro, dando também a conhecer, através de suas realizações, sempre eivadas de humanismo e realidade.
Tornou-se uma referência pelo seu destemor, intenso labor, pulso forte e argumentos convincentes contra polemistas de plantão ou providos de mau-caratismo.
Pela luta que empreendeu em divulgar e deixar viva, através da mídia, a cultura do Nordeste, é considerado como um dos mais importantes incentivadores da cultura local.
Um caminho trafegando em sentido contrário.
Excesso de velocidade.
Uma estrada entregue à circulação antes de ser sinalizada.
Eis, reunidos, os ingredientes necessários para uma tragédia.
Na fatídica noite de 02 de abril de 2005, retornava de Santa Cruz do Capibaribe, para, no dia seguinte, fazer a entrega do troféu jornalista Roberto Marinho, ao clube campeão pernambucano, o Santa Cruz, quando, os malfadados ingredientes se mostraram.
A seu funeral acorreram centenas de pessoas que demonstraram o quanto era amado e como reconheciam suas realizações.
Era uma massa humana. Uma plêiade onde se viam jornalistas, empresários, políticos, cantores, artistas, jogadores e anônimos.
Grande incentivador da cultura foi homenageado “in memorian”, em 2005, por ocasião dos festejos juninos nas cidades de Caruaru e Gravatá, a cidade de Olinda homenageou-o dando seu nome à rua em que se situa a Rede Globo de Televisão (Rua José Dias Raposo nº 1000), a cidade de Igarassú inaugurou um Ginásio Poliesportivo e Quadrilhódromo e batizou-o com o nome pelo qual esse ilustre samarra se tornou popular: JOTA RAPOSO, e até mesmo o dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, lhe dedica página.
As homenagens que lhe foram prestadas mostram o quanto era admirado, benquisto e como seu trabalho foi reconhecido.
Não me furto, sob pena de ser taxado de pedante, a deixar aqui as palavras do jornalista Roberto Nascimento, da RNTV, citando como fonte outro jornalista, Ciro Cavalcanti, a propósito do abandono do futebol nordestino: -“Desde a morte de Jota Raposo, o único que tinha moral na Rede Globo de peitar, virar a mesa e lutar pelos times do Nordeste, que a situação ficou dessa maneira. Precisamos de gente forte para peitar, como o saudoso e abnegado Raposo”.
Aqueles que quiserem conhecer um pouco de suas criações podem, através do “You Tube”, acessar aos festivais retro citados.
Só quem teve o privilégio de consigo conviver sabe o quanto era criativo, irreverente e boa praça.
Um bem haja às pessoas que procuram preservar sua memória e seguir seus exemplos e para não ser injusto, com inúmeros amigos, que aqui mereceriam ser citados, cinjo-me à citação única de seus três filhos: Carla, Rodrigo e Matheus, que têm, ao longo do tempo, perseverado nesse ideal.
Adelindo de Aguiar Raposo
Forte abraço Primo Adelindo
Caro Filipe, como deves ter percebido andei afastado deste “blog”.
Fi-lo, não por vontade própria, mas pela escassez temporal. Retorno, ainda que sem o tempo desejado, aproveitando para parabenizar as novidades inseridas e agradecer-te.
Levemos para a África, nossa águia vencedora!
Fte abç